Suplementos e nutracêuticos para cães: o que os estudos mostram até agora

Border collie marrom e branco correndo na grama com uma bolinha na boca
Foto: Anna Dudkova, Unsplash

Muitos tutores oferecem suplementos ao cão para apoiar as articulações, complementar a alimentação ou dar um cuidado a mais. A pesquisa veterinária já começou a testar alguns desses ingredientes. Os resultados mostram que alguns têm evidências promissoras e que outros, mesmo muito usados, ainda não têm benefício bem demonstrado.

Este texto reúne o que os estudos encontraram e como ler esses resultados sem transformar estudos pequenos em grandes promessas.

Golden retriever claro deitado na grama com uma bolinha de tênis entre as patas
Foto: Barnabas Davoti, Unsplash

O que são suplementos e nutracêuticos

Suplementos fornecem nutrientes ou outras substâncias para complementar a alimentação. Nutracêuticos são produtos ou ingredientes associados a possíveis benefícios para a saúde, além do simples fornecimento de nutrientes. Na prática, os dois termos aparecem de formas diferentes, conforme o produto. Exemplos comuns são o ômega-3, a glucosamina, a condroitina e o colágeno.

A presença de um ingrediente no rótulo não mostra, por si só, que o produto funciona. O que importa é qual ingrediente foi estudado, em que quantidade, para qual finalidade e com que resultado.

O que a pesquisa encontrou

Um dos temas mais estudados é a osteoartrite, uma doença das articulações que pode causar dor e dificuldade de movimento. Ela serve de exemplo porque os resultados mudam bastante de um ingrediente para outro.

Ômega-3: resultados promissores

Os ácidos graxos ômega-3, presentes por exemplo no óleo de peixe, são estudados pelo papel possível na redução dos processos inflamatórios.

Em 2010, um estudo clínico em clínicas veterinárias testou, em cães com osteoartrite, uma ração com concentração muito maior de ômega-3. Os pesquisadores observaram melhora em alguns indicadores clínicos, como a capacidade de levantar, brincar e caminhar, no grupo que recebeu essa ração (Roush e colegas, 2010).

Um detalhe importante: o estudo testou uma alimentação completa, formulada para isso, e não um suplemento isolado. Por isso, o resultado não vale automaticamente para todos os produtos de ômega-3 à venda.

Glucosamina e condroitina: ingredientes conhecidos, evidência limitada

A glucosamina e a condroitina são muito associadas à saúde da cartilagem e aparecem em muitos produtos para cães com dificuldade de movimento. A fama do ingrediente, porém, não equivale a benefício comprovado.

Em 2022, uma revisão sistemática com metanálise reuniu 57 artigos, com 72 ensaios clínicos, sobre dietas enriquecidas e nutraceuticos usados na osteoartrite de cães e gatos. Encontrou evidência favorável para dietas enriquecidas com ômega-3 e para suplementos de ômega-3. Para os produtos de glucosamina e condroitina, os autores não encontraram benefício convincente no alívio da dor. Os resultados com colágeno foram mais fracos (Barbeau-Grégoire e colegas, 2022).

Isso não quer dizer que todo suplemento seja ineficaz. Mostra que cada ingrediente precisa ser avaliado separadamente e para a finalidade a que se destina.

Uma revisão publicada em 2024 sobre tratamentos não medicamentosos e não cirúrgicos da osteoartrite canina também aponta evidência para certos nutracêuticos, como o ômega-3. Os autores pedem estudos maiores e recomendam medidas objetivas, como a análise da marcha em plataforma de força, para reduzir o viés de quem cuida do animal (Pye e colegas, 2024).

Como olhar a qualidade de um estudo

Nem todo estudo permite a mesma conclusão. Alguns pontos ajudam a ler os resultados:

  • Número de animais. Estudos com poucos cães têm mais dificuldade de mostrar um efeito consistente.
  • Como o resultado foi medido. Observar o comportamento, medir a atividade com sensores e avaliar o movimento com instrumentos são métodos diferentes, e um complementa o outro.
  • Duração. Alguns efeitos demoram a aparecer, outros duram pouco.
  • Composição do produto. O resultado de uma fórmula não vale para outra, mesmo que os rótulos tragam ingredientes parecidos.
  • Qualidade do desenho do estudo. Grupo de comparação, sorteio dos participantes e, quando possível, avaliadores que não sabem quem recebeu o quê ajudam a reduzir distorções.

Como avaliar se um suplemento faz sentido para o seu cão

Antes de escolher um produto, vale pensar em quatro pontos.

Qual é o objetivo. Complementar a alimentação, tratar uma deficiência de nutriente e apoiar a mobilidade são situações diferentes. O produto precisa corresponder a uma necessidade real.

Se existem estudos em cães. Procure saber se o ingrediente foi estudado em cães, para a condição em questão, e se o estudo mediu resultados que importam na prática.

O que acompanhar. Se a ideia é apoiar a mobilidade, pode ajudar registrar a facilidade para levantar, a duração dos passeios e a disposição para as atividades. Esses registros ajudam a ver a evolução, mas sozinhos não provam que o suplemento causou a mudança.

Se serve para aquele cão. Idade, alimentação, doenças e remédios em uso mudam a escolha. O veterinário ajuda a avaliar a necessidade, a dose e possíveis interações.

Um suplemento não substitui uma alimentação equilibrada nem o tratamento veterinário necessário.

O que ainda precisamos entender

A pesquisa sobre nutracêuticos veterinários continua. Para muitos ingredientes ainda faltam ensaios clínicos maiores, com métodos de avaliação consistentes e acompanhamento mais longo.

A falta de evidência convincente não prova que um produto nunca possa ajudar algum animal. Significa que, com os dados que existem hoje, não dá para afirmar com segurança que o benefício existe. Do mesmo modo, um resultado favorável em um estudo não garante que todos os cães vão responder igual.

Cuidar bem do cão inclui fazer perguntas, observar o que ele precisa e buscar informação de qualidade. A escolha de um suplemento deve partir da finalidade, da segurança e da evidência disponível, e não só da fama do ingrediente ou da promessa do rótulo. Quem convive com o cão percebe mudanças que merecem atenção, e essa observação vale muito quando levada ao veterinário.

Se algo parecer fora do normal

Se o seu cão está com dor, manca, tem dificuldade para levantar ou mudou o comportamento de repente, converse com o seu veterinário de confiança. A observação ajuda você a contar o que viu, e quem avalia a saúde é o veterinário.

Educação canina não substitui a avaliação veterinária.

Fontes:
Roush JK e colegas. Multicenter veterinary practice assessment of the effects of omega-3 fatty acids on osteoarthritis in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, 2010, 236(1):59-66. https://doi.org/10.2460/javma.236.1.59
Barbeau-Grégoire M e colegas. A 2022 systematic review and meta-analysis of enriched therapeutic diets and nutraceuticals in canine and feline osteoarthritis. International Journal of Molecular Sciences, 2022, 23(18):10384. https://doi.org/10.3390/ijms231810384
Pye C, Clark L, Bruniges N, Peffers M, Comerford E. Current evidence for non-pharmaceutical, non-surgical treatments of canine osteoarthritis. Journal of Small Animal Practice, 2024, 65(1):3-23. https://doi.org/10.1111/jsap.13670

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